Adriano Correia de Oliveira

Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu na cidade do Porto, nº 370 da Rua Formosa, a 9 de Abril de 1942, Filho de Joaquim Gomes de Oliveira (conhecido por Joaquim Trafegueiro) e de Laura Correia.
Com escassos meses de vida passou da margem direita para a margem esquerda do rio, passando a residir na Vila de Avintes 
- terra de agricultores, pescadores e panificação (a broa de Avintes) com longa tradição no associativismo e actividades culturais, nomeadamente o teatro."

"Vivia na Quinta de Porcas, onde ainda hoje se respira um ambiente marcadamente rural, entre videiras, cães domésticos e belas alamedas arborizadas com vista para o rio."
"Este é o sítio mais bonito do mundo", dizia Adriano."

"Adriano levava todos os amigos para a quinta (segundo Roberto Machado chegavam a juntar-se cerca de 30 pessoas), onde D. Laura, como excelente anfitriã, recebia os amigos, os familiares dos amigos... Aquela era a casa de todos, assim como vieram a ser mais tarde todos os lugares de Adriano - de todos."

"Após a instrução primária, que completou em Avintes, frequentou o Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde finalizou o curso do liceu, tendo-se revelado um excelente aluno.
Passada esta etapa ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Apesar da sua primeira escolha ter recaído no curso de História, por forte influência da família, Direito tornou-se o curso de eleição."

"Adriano chegou a Coimbra em Outubro de 1959, para frequentar o curso de Direito, com apenas 17 anos, num tempo de "paixão histórica" e de agitação social propícia a impulsos e à mudança. Coimbra proporcionava a Adriano novos horizontes intelectuais. Ai entrou em contacto com os problemas da sua geração, que eram os problemas de uma juventude em rota de colisão com o regime. "

"A primeira aspiração de Adriano no campo cultural foi tocar viola eléctrica no conjunto ligeiro da Tuna Académica, lugar para o qual tinha já alguma experiência. No entanto, esse lugar já estava ocupado por José Niza, acabando Adriano por procurar um novo caminho para a música."

"Adriano desde cedo se integrou em vários organismos culturais e desportivos da Associação Académica de Coimbra, deixando o curso de para actividade secundária. Tornou-se assim elemento do Orfeão Académico de Coimbra (onde ocupava o lugar de primeiro tenor), fazendo também parte do grupo universitário de danças regionais. No CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Académia de Coimbra), foi actor e colaborador.

Foi jogador de voleibol da Briosa e mais tarde colaborou nos Cadernos Culturais da Associação Académica.

A iniciação no fado aconteceu com Eduardo Melo. Adriano começou a assistir aos ensaios do Grupo Eduardo Melo, do qual faziam parte o irmão Ernesto Melo, Durval Moreirinhas e Eduardo.

Adriano tinha uma voz suave e triste, mas apesar de tudo potente."

"Adriano acompanhava este grupo durante as serenatas de rua. Nas noites mais frias em Coimbra, para manter as mãos quentes, a solução era, para os instrumentistas, pôr umas pedras ao lume, aquecê-las bem e depois envolvê-las em jornais. Colocadas nos bolsos, permitiam manter as mãos quentes, facilitando o dedilhar. Mas era necessário que alguém levasse os instrumentos... Adriano era uma espécie de aguadeiro: era o indivíduo que levava a viola de Durval Moreirinhas para que este pudesse manter as mãos quentes.

Até que um dia houve uma serenata em que o cantor, por um motivo qualquer, faltou. Como alternativa, Adriano teve que cantar porque conhecia todas as letras. Todo o grupo ficou surpreendido porque, se a voz não resultava no interior, ao ar livre era excelente e muito semelhante à de Zeca Afonso.

Este acontecimento foi uma conquista para Adriano, pois assim viu a sua oportunidade de integrar o grupo."

"Trova do Vento que Passa"

"Foi um grito, talvez um novo "grito do Ipiranga".
Entrou de uma forma simples e directa no coração de uma geração, no coração de todos os que sonhavam com a liberdade.
Quantos homens, quantas mulheres, que sentiram as forças fraquejar dentro de quatro paredes (Peniche, Tarrafal, Caxias...) com uma cama, uma mesa e um balde como horizonte visual, não trautearam dentro do corpo estes versos:

Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não...

É como se brotasse de uma fonte cristalina, pura, uma réstia de esperança que permitisse ganhar coragem para enfrentar mais um dia, mais um ciclo, mais umas horas de interrogatório...
Esta música foi cantada pela primeira vez numa festa de recepção de caloiros da Faculdade de Medicina de Lisboa, realizada no Hospital de Santa Maria. A sala estava repleta e Adriano teve que repeti-la seis vezes.
Mais tarde os estudantes saíram para a rua a cantar em coro. Foi o quebrar do gelo que se tinha instalado no movimento estudantil após a repressão de 62 e 63.

A Trova viria a tornar-se um hino do movimento estudantil."

"Tu e Eu Meu Amor" (Música dedicada a Matilde)

Tu e eu meu amor
Meu amor eu e tu
E o amor
É o nu contra o nu

Nua a mão que segura
Outra mão que lhe é dada
Nua a suave ternura
Na face apaixonada
Nua a estrela mais pura
Nos olhos da amada
Nua a ância insegura
De uma boca beijada

Tu e eu meu amor...
Nua a dor e o prazer
E o riso que constrói
E a lágrima sentida
Pelo que a morte destrói

Nu o corpo ao nascer
À terra pra onde vai
Meu amor que ao nascer
Nós, nascemos prá vida.

Tu e eu meu amor
Nua a mão que segura
Tu e eu meu amor..."

"O ano de 1966 acabou por representar uma viragem na vida pessoal de Adriano, acabando mais tarde, por se reflectir na sua produção musical.
Em Outubro desse ano Adriano contraiu matrimónio em Lisboa, fixando aí residência. Deste enlace resultou o nascimento de dois filhos Isabel em 1967 e José Manuel em 1971.
O cantor cumpriu o serviço militar obrigatório entre 1967 e 1970, após o que tentou retomar o curso de direito, embora sem resultados práticos. Conseguira uma colaboração no Gabinete de Imprensa da FIL, (Feira Internacional de Lisboa) onde trabalhou até à revolução. A partir de Abril, Adriano dedicou-se por inteiro à música e à construção de um mundo melhor. Este trabalho na FIL foi a única ocupação remunerada que Adriano exerceu, para além da sua actividade musical.
Não voltou para Coimbra a não ser de forma esporádica, embora dando sempre o seu apoio aos movimentos estudantis na luta contra o regime.

"..."Residia numa casa de estudantes com a Ana Monteiro, a Manuela e a Conceição. Todas nós estudávamos em Lisboa. A Ana Monteiro desafiou-nos para irmos à boleia para Aveiro no Carnaval de 66. E fomos as três à boleia de Lisboa para Coimbra. Em Coimbra parámos na república Rás-Te-Parta e foi nessas circunstâncias que conheci o Adriano. Nesse mesmo ano, casámos em Outubro."... Matilde Leite"

"Cantar Abril"

Com a censura instituída no país, os músicos de intervenção e outros artistas progressistas sentiram necessidade de uma estrutura que lhes permitisse uma certa organização e a oportunidade de planificar a sua actividade.
Não sei quantos mais sonharam com construção de uma cooperativa musical, mas a Cantarabril deve muito à iniciativa de Adriano.

"A Cantarabril é um sonho antigo que era comungado pelo Adriano e pelo Paredes, José Jorge Letria e pelo Alfredo de Sousa". 

1981

É afastado da Cantarabril, associando-se à Cooperativa Era Nova, onde volta a encontrar velhos amigos.

Participa numa sessão de solidariedade com os presos do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado).

1982

Em Setembro participa numa festa de solidariedade com os trabalhadores da Anop, no Coliseu dos Recreios.

O último espectáculo de Adriano aconteceu em Mondim de Basto, num encontro do partido comunista, que se realizou numa escola.

A 16 de Outubro sucumbe, vítima de um acidente vascular esofágico.

Adriano Correia de Oliveira
Por Manuel Reis 
no seu Livro "ADRIANO Presente!"