Henrique de Araújo Moreira

Henrique de Araújo Moreira veio ao mundo numa modesta casa situada na rua 5 de Outubro, em Avintes, no dia 9 de Maio de 1890.

Seu pai Manuel de Araújo Moreira tinha sido tanoeiro e sua mãe Josefa da Silva toucinheira enquanto viveram no lugar do Magarão, passando a merceeiros quando abriram um pequeno estabelecimento de secos e molhados no lugar de Cabanões. Ao contrário de seus irmãos Joaquim e Cesário, este negócio nunca tentou Henrique, que preferia desenhar e fazer pequenas figuras de barro, interesse esse manifestado desde os bancos da Escola de Cabanões onde fez a instrução primária.

Foi ajudante de sapateiro e aprendiz de santeiro antes de, aos 15 anos, ingressar na Academia de Belas Artes do Porto onde fez de imediato os dois primeiros anos num só, obtendo dupla média de 16 valores, nota máxima dada por José de Brito que era mestre de desenho. Completou o curso em 1911, obtena do média final de 17 valores, sendo mestre de escultura Teixeira Lopes. Teve como condiscípulos Diogo de Macedo, António Azevedo, Manuel Martins, Sousa Caldas, Zeferino Couto e Azulina Gouveia.

A convite de seu mestre, trabalhou alguns anos no seu atelier antes de alcançar a independência artística. Os irmãos Teixeira Lopes foram aliás seus padrinhos de casamento quando em 1913 se casa com Adelina Campos Nunes, sua conterrânea, na Igreja Paroquial de Avintes, com quem viria a ter 5 filhos (Fernando, Hélia, Hernâni, Céu e Maria da Graça).

Durante o periodo da Grande Guerra (1914/18), e com a família a crescer, a vida de então torna-se difícil. Henrique resolve tentar a sorte em Lisboa montando um atelier mas apesar de ter lutado denodadamente, tendo inclusivé andado de porta em porta a oferecer cópias dos seus trabalhos, Lisboa não lhe reconhece o valor.
De volta ao Porto, associa-se a um marmorista junto ao cemitério de Agramonte mas o sócio viria a falecer e a sociedade desfez-se.

A vida começa-lhe a sorrir quando ganha o concurso para o monumento ao “Soldado Desconhecido” (1928) para a Praça de Carlos Alberto no Porto, abrindo-lhe as portas para novas encomendas e ganhos financeiros. Cinco outros monumentos à Grande Guerra se lhe seguiram, em Oliveira de Azeméis (1930), Tomar (1932), Portalegre (1935), São João da Madeira (1937) e Luanda (1937).

Apesar de ter obras por todo o país, foi no Porto que se estabeleceu e se afirmou plenamente. Na Avenida dos Aliados encontram-se os “Meninos” ou “Abundância” (1931) e a “Juventude” ou “Menina Nua” (1929) além das figuras escultóricas nas fachadas da Câmara Municipal (1957) e do antigo Comércio do Porto (1929), baixos-relevos no interior do edifício da Caixa Geral de Depósitos (1931), a águia-imperial no antigo Café Imperial (1936) e o “Guarany” (1933) no Café Guarany. Deixou também a sua marca nas casas de espetáculos do Porto como a platibanda do Teatro Rivoli (1942) e baixos-relevos no interior dos teatros de S.João, Coliseu e Rivoli.

Na Foz do Douro encontram-se o “Salva Vidas” (1937), o busto de “Antero de Figueiredo” (1966) e o monumento a Raúl Brandão (1967). Na Avenida de Camilo o busto de “Camilo” (1925), no Carvalhido a estátua de “D. António de Castro Meireles” (1955), na Praça da República o “Padre Américo” (1959) e em frente à escola Infante D. Henrique o “Pedreiro” (1933). A “Ternura” (1964) no Jardim de São Lázaro, o “Triunfo da Indústria” (1946) no Palácio do Comércio, baixos-relevos na fachada dos antigos edifícios da Bolsa do Pescado (1934) e do Frigorífico do Bacalhau (1940). No Palácio da Justiça, dois baixos-relevos (1961) na sala de audiências do 6º e do 7º Juízo e a estátua da “Justiça” (1967) no salão nobre. Na Igreja da Ordem da Trindade na mesa do altar-mor a “Descida do Espírito Santo” (1945), na fachada principal da Igreja da Imaculada Conceição (1947) as estátuas de Santo António, S. João de Deus, Beato Nuno Álvares Pereira e S. João de Brito, em granito, e no interior os púlpitos de pedra de ançã com a representação dos Doze Apóstolos (1947). Na Igreja de Santo António dos Congregados, o altar da N.ª Sr.ª Auxiliadora e o altar de Santo António (1949). O monumento a “António Pinto Machado” (1965) nos jardins do Palácio de Cristal, o busto de “João de Deus” (1947) na Constituição e baixos-relevos no edifício Rialto (1947) e no Hotel Infante Sagres.

Concluiu também o monumento aos “Heróis da Guerra Peninsular” (1951) na rotunda da Boavista juntamente com Sousa Caldas. É aliás com o dinheiro ganho com esta empreitada que Henrique Moreira compra uma vivenda na Avenida Antunes Guimarães onde viveria até ao fim da sua vida.

Fora da cidade do Porto destacam-se obras como o frontão do Palácio da Justiça de Coimbra (1934); em S. João da Madeira a fachada do Santuário de N.ª Sr.ª dos Milagres (1938) e a estátua do “Conde Dias Garcia” (1939); em Baião o Padrão Comemorativo e o monumento de homenagem a Eça de Queiroz (1968); em Oliveira de Azeméis a escultura na fachada da Capela N.ª Sr.ª de La Salette (1940), os bustos de “Bento Carqueja” (1960), “D. Frei Caetano Brandão” (1965) e do “Conselheiro Albino Soares dos Reis” (1968) e o monumento “Ao Emigrante” (1966); em Lamego o “Trabalhador Rural” (1946) e as estátuas das quatro estações na Avenida Alfredo Sousa; na Régua os bustos de “Afonso Soares” (1950) e do “Comendador Delfim Ferreira” (1970); em Santa Maria de Lamas a estátua do “Comendador Henrique Amorim” (1970) e os bustos do “Padre Zé” (1978) e de “Henrique Amorim” (1959); o busto de “Manuel Afonso Espregueira” (1936) em Viana do Castelo; a estátua de “Cristóvão Colombo” (1940) no Funchal; o “Cristo Rei” (1940) em Penamaior; o busto de “João Pinto Ribeiro” (1940) em Celorico de Basto; o monumento ao “Almirante Jaime Afreixo” (1951) na Murtosa; a estátua de “Sílvia Cardoso” (1953) em Paços de Ferreira; um baixo-relevo no monumento a “Duarte Pacheco” (1953) em Loulé; o monumento ao “Bombeiro” (1954) em Barcelos; o busto da “Condessa de Penha Longa” (1955) em Cucujães; a estátua de “António Cândido” (1959) em Amarante; o “Pensador de Sagres” (1960) em Tomar; o busto de “Guilherme Alves Moreira” (1961) em Santa Maria da Feira; o busto do “Padre Artur da Assunção Saúde” (1970) em Sandim; o busto do “Dr. Francisco Teixeira Queiroz” (1973) em Arcos de Valdevez; o “Despertar da Raça” (1933) em Vila Nova de Gaia cujo modelo foi Manoel de Oliveira; baixos-relevos no monumento ao “Dr. Magalhães Lemos” (1937) em Felgueiras e a “Maria da Fonte” em Macedo de Cavaleiros.

Na sua terra natal Avintes deixou obras como os bustos da “Ti Manca” (1928), de “Calouste Gulbenkian” (1964) e do “Engº Arantes e Oliveira” (1967) e a estátua da “Padeira de Avintes” (1974).

Existem ainda obras no Museu José Malhoa (Caldas da Rainha), Museu Municipal Santos Rocha (Figueira da Foz), Museu de Santa Maria de Lamas, Museu de Arte Popular (Lisboa), Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto), Museu Dr. Joaquim Manso (Nazaré), Museu Abade Baçal (Bragança), Museu Amadeo Souza-Cardozo (Amarante), Casa Museu Acácio Lino (Amarante), Museu Militar do Porto, Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio (Porto), Museu de Ílhavo, Museu da Medicina do Hospital de S. João (Porto), Museu Nacional de Arte Contemporânea (Lisboa) e Palácio Nacional da Ajuda (Lisboa).

Henrique Moreira recebeu a medalha de ouro na Exposição Ibero-Americana de Sevilha em 1929 e participou na Exposição Internacional e Colonial de Paris em 1931 e na Exposição do Mundo Português em Lisboa em 1940. Em 1942 obteve a medalha de ouro da Sociedade Nacional de Belas Artes com a escultura “Calvário”.
O Porto premiou-o com a medalha de ouro da cidade em 1968 e Avintes concedeu-lhe a primeira medalha de mérito da freguesia em 1977.

Faleceu a 16 de Fevereiro de 1979 na sua casa na Avenida Antunes Guimarães no Porto, sendo sepultado no Panteão Municipal do cemitério de Agramonte.

Em 1991 Avintes homenageia o escultor inaugurando um monumento a Henrique Moreira da autoria do escultor Manuel Pereira da Silva e colocando uma lápide na casa onde nasceu.

Na Foz do Douro existe a Rua de Henrique Moreira, em Vila Nova de Gaia a Praceta de Henrique Moreira e em Avintes a Praça Escultor Henrique Moreira.